Tenho andado um bocado preguiçoso...
Mas hoje vou tentar falar do caso Jorge Coelho/Mota Engil. Porque sobre a Fernanda Câncio recomendo a leitura do Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje - penso que é um texto definitivo. A partir dali não há nada a dizer. Sobre o Jorge Coelho (desculpem esta de "o Jorge Coelho" - parece que andei com ele na escola, mas é o problema de ser figura pública: se eu me puser com Drs ou Srs parece que ou sou parvo ou estou a gozar - é mais uma consequência perversa do nosso hábito reverencial face aos títulos):
1 - É indiscutível que se um homem tem capacidade para gerir aparelhos partidários de grande dimensão, ministérios, secretarias de estado etc. também tem capacidade para gerir uma empresa - não é favor nenhum.
2 - É indiscutível que o facto de um homem (quem diz um homem diz uma mulher, desculpem o machismo mas sai ao correr da pena) ter sido ministro isso não lança sobre ele um anátema nem o obriga a entrar num período de abstinência para-religiosa que o force a abdicar de trabalhar em lugares de prestígio e de bons vencimentos.
3 - Agora quero-vos pôr perante uma situação e uma pergunta.
A situação: eu sou bancário. Tenho um curso numa área das ciências sociais mas entretanto desenvolvi a minha actividade profissional no sector financeiro. Tenho assim conhecimentos na minha área académica (já um pouco esquecidos mas passíveis de serem recuperados e actualizados) e na área dos mercados financeiros. Entretanto entro num partido, vou para o Governo, até sou um bom ministro, acabo por ficar com uma(s) pasta(s) que nao têm nada a ver com a minha experiência profissional mas que eu até desenrasco bem porque sou um bom gestor de pessoas e um bom decisor. Saio do governo. Uns tempos depois sou convidado e vou dirigir uma Empresa de Arquitectura de grande dimensão. Que comentários vos merece esta situação?
A pergunta: Quantas médias e grandes empresas existem em Portugal? Quantas têm relações estreitas com o poder político ao ponto de o seu produto ser em grande parte, quiçá na sua maioria, fruto de trabalho para o poder?
Sobre a situação: os meus amigos dirão que é absurda. Porquê? Sou um bom Gestor. Mas o que é que raio é que vai fazer um ex-ministro para uma empresa de arquitectura? Aquela não é a sua área profissional... A incongruência releva aqui do facto esta ser uma empresa de arquitectura e portanto não trabalhar para o poder (pelo menos de uma forma maioritária). Nenhum ex-governante vai mudar de ramo profissional para ir para uma empresa destas. Se isso acontecer alguém é burro no meio da história...
Sobre a pergunta, o problema é que posto assim o problema, a resposta é demasiado óbvia... Há uma e só uma razão determinante para ele ter ido PARA AQUELA EMPRESA... ou então foi coincidência e a propósito, eu sou um autocarro da Carris...